domingo, 11 de maio de 2014

Quebra de paradigmas: encarando a indústria gráfica com software livre


O software livre, afinal de contas, tem estrutura para competir no ramo da indústria gráfica? Tem. Não só tem como possui todas as condições de impor respeito e em mesmo pé de igualdade com alguns gigantes consagrados do setor. Mas por que então o software livre ainda tem tão pouca expressividade nessa área? Bom, as respostas podem ser muitas. Mas ao longo deste artigo vou tentar enumerar pelo menos uns quatro fatores que considero principais. Um detalhe importante é que os programas open source destinados ao design gráfico vem ganhando cada vez mais espaço, conforme novas atualizações incorporam recursos extras e aprimoram ainda mais as funcionalidades desses softwares.

Desde quando Johannes Gutenberg teve a brilhante ideia de colocar tipos móveis numa prensa de madeira, capaz de produzir textos impressos em massa, por volta de 1439, os métodos de impressão nunca mais pararam de evoluir. A técnica de impressão com moldes não era novidade – já tinha sido iniciada havia 14 séculos na China por meio da impressão de gravuras. Mas, agora, com a criação de Gutenberg, que moldara os tipos em um material bem mais resistente e durável que os usados pelos chineses, ela ficava muito mais eficaz e rápida. A impressão em massa, possibilitada a partir daí, transformaria a cultura ocidental para sempre. Houve vários momentos memoráveis que alavancaram a reprodução da escrita - como a que foi ocasionada pela revolução industrial. No século 20 as técnicas de impressão deram dois gigantescos saltos - o primeiro foi no início do século, com o surgimento do sistema offset; e o segundo foi próximo ao final, com o começo da era da editoração eletrônica (ou DTP, do termo em inglês Desktop Publishing), inaugurado pelo software PageMaker para os computadores Macintosh, da Apple.


Apesar da crescente tecnologia dos equipamentos e das técnicas de impressão, até a década de 1980 a composição gráfica ainda era algo bastante extenuante e restrito, confinada a birôs especializados e nas grandes editoras.

O surgimento da primeira versão do PageMaker em 1985, produzido pela empresa Aldus foi realmente algo revolucionário. Na época, um software capaz de fazer com que textos e fotos fossem capazes de se coexistirem harmoniosamente dentro de um único documento, de maneira organizada; e tudo isso dentro de uma interface de visualização real - era uma façanha tremenda. Logo após o PageMaker surgiram outros, como o Quarkxpress e Corel Ventura. O PageMaker porém, dominou o campo da produção gráfica. Em 1988, a concorrência do QuarkXpress era acirrada, oferecendo recursos inovadores como a capacidade de separar as cores. Tal recurso só foi incorporado ao PageMaker em sua versão 5.0 - em 1991. Veio muito tarde! A essa altura uma boa parte do mercado já havia voltado suas atenções para QuarkXPress.

Em 1994 a Adobe comprou a Aldus e chegou a lançar as versões 6.0, 6.5 e 7.0 do PageMaker. Esta última - a 7.0 - em 2001. Paralelamente a Adobe vinha concentrando suas pesquisas em seu próprio software de diagramação - o Adobe InDesign, lançado em 1999. Um dos objetivos era bater o QuarkXPress com um produto que a Adobe prometia ser ainda melhor. Parte das estratégias para alcançar este objetivo envolvia a necessidade de neutralizar outro forte concorrente ao InDesign de dentro da própria empresa - o Adobe PageMaker. Foi assim que, em 2004, a Adobe anunciou que o desenvolvimento de PageMaker terminara mas que continuariam a vender e a fornecer suporte à última versão do produto - como de fato o fazem até hoje. O InDesign foi apresentado como o seu sucessor. Com uma enxurrada de recursos e uma irresistível sedução de oferecer total integração aos arquivos do poderoso Adobe Photoshop, o InDesign derrubou o QuarkXPress e se solidificou como um "padrão" para o mercado gráfico de editoração eletrônica.

Esse "padrão" tem um custo. Se o objetivo é se manter dentro de um mínimo de legalidade o preço é alto. A versão CS6 do InDesign chegou a ser vendida por 1.159 dólares. Em maio de 2013 a Adobe passou a adotar o sistema de assinaturas, em que o usuário deve pagar uma mensalidade pelo uso do software. A última versão - o Indesign CC - possui um custo de US$ 49,99 ao mês. Faça as contas! Mas só isso não basta. Deve entrar nesse cálculo aí o custo do sistema operacional + um aplicativo para edição de fotografias + um aplicativo de desenhos vetoriais + um editor de textos. Se considerarmos o uso legal do InDesign + Photoshop + Illustrator + Microsoft Office + Windows, trata-se de uma bagatela considerável.

Outra alternativa é se manter ilegal, partir para sites não confiáveis baixando cracks, keygens, arquivos ".exe" e dlls; e ficar ali algumas horas fazendo uma série de gambiarras, enquanto desliga o antivírus que não para de berrar. No final de umas três ou quatro horas, o sujeito fica feliz da vida ao ver que, finalmente, o programa se abriu (deu certo!) dentro de um sistema totalmente comprometido e que teve de ser deliberadamente corrompido para poder funcionar. Aí, depois dessa maratona toda de irresponsabilidades e inconsequências, o usuário acessa a internet e posta na rede social que o Linux é ruim por ser complicado de instalar programas.

Existe ainda uma terceira alternativa, muito eficaz para ser sincero, que é usar software livre. A eficácia que eu me refiro aqui não é só pelo fato do software livre possuir custo zero. Mas refiro-me também à sua qualidade e confiabilidade - característica incontestável que o software livre tem de sobra. Só pelo fato de ser totalmente "livre" já e algo a ser seriamente considerado. Como estou falando de editoração eletrônica, aqui o Scribus entra em cena.


O Scribus é um software livre que surgiu em julho de 2003 na Alemanha (coincidentemente o berço da indústria gráfica e uma das maiores potências do setor). Pode ser considerado um software muito novo - ainda está na sua versão 1.4 - sendo que possui um invejável potencial de crescimento, já que é o único representando opensource do gênero a competir num mercado de editoração eletrônica dominado (e padronizado) exclusivamente pelos softwares proprietários.

Quem pensa que o Scribus é uma espécie de "primo pobre" da editoração eletrônica está extremamente enganado. A verdade é que o Scribus já nasceu impondo respeito. Foi o primeiro programa a oferecer nativamente suporte ao formato PDF/X-3, que é um padrão ISO, possuindo uma certificação internacional, aberto, e apropriada para gerar arquivos PDF de altíssima qualidade, destinados à impressão profissional. Isso um ano antes da Adobe incorporar esse recurso no InDesign. O Scribus também possui suporte nativo às cores CMYK, cuja conversão é feita automaticamente e possui muitas ferramentas de desenho vetorial, incluindo o suporte a arquivos em SVG (um padrão livre homologado pela W3C para desenhos vetoriais), que podem ser incluídos diretamente no documento e modificados dentro do próprio Scribus, sem necessidade de ficar importando e exportando.

Outras características é que os recursos do Scribus ainda podem ser expandidos através de plugins, escritos em C++, ou scripts escritos em Python.

Assim como o LibreOffice, o Scribus utiliza um formato de arquivo aberto e bastante limpo, baseado em arquivos XML. Trata-se de um formato amplamente documentado. De fato, isso realmente surpreende, pois os arquivos gerados por outros softwares da área são extremamente complexos e tornam-se praticamente impossíveis de serem recuperados caso se tornem corrompidos. Tal circunstância torna o Scribus muito mais raro de perder algum trabalho devido a arquivos corrompidos. Mesmo nessa rara possibilidade, existe condições de abrir o arquivo corrompido do Scribus em qualquer editor de textos, remover a parte danificada e o arquivo estará recuperado e pronto para uso.

Todas essas informações nos levam novamente à pergunta inicial: por que então o software livre ainda tem tão pouca expressividade nessa área de editoração eletrônica?

Algumas dessas respostas já podem ser encontradas ao longo do texto. Vou apontá-las:
  1. O mercado de editoração eletrônica já encontra-se dominado pelo software proprietário. Algo que, de fato, não se pode negar que o InDesign é um excelente software. Eu não seria louco de afirmar que o Indesign seja ruim ou inferior a qualquer outro. Nesse quesito você tem três opções: ou paga, ou usa gambiarras conforme mencionei um pouco mais acima ou adota o software livre. Isso de uma maneira geral segue exatamente essa mesma ordem, sendo que o software livre seria a última opção adotável pela maioria dos usuários. A pirataria contribui drasticamente para a não utilização do Scribus, já que é muito fácil conseguir uma cópia pirateada dos concorrentes proprietários, que são muito mais famosos e investem pesado em publicidade.
  2. Este segundo ponto é clássico. Existe o medo. Sim, é isso mesmo. Tudo que é diferente causa medo, apreensão. Usar software livre é para quem gosta de se aventurar em novidades e isso não é para todos. Quem nunca se deparou com aquele usuário do Windows que jogou na lixeira o atalho do Microsoft Word que estava ali na área de trabalho, e agora está desesperado a procura do dito cujo, sem saber como irá fazer para abrir o programa. Esta é a síndrome de mudança. A pessoa foi apresentada ao Windows, para ela só existe o Windows e se lhe mostrar algo diferente é o "ó" do borogodó. Esse é aquele tipo de usuário que daqui a 10 anos ainda estará usando o Windows XP e os ícones continuarão naquele mesmo local de sempre. No caso do Scribus esse medo pode ser ainda mais pragmático. Principalmente se a pessoa já trabalhou com outros softwares para produção de arquivos para impressão, como o PageMaker, o CorelDraw ou até mesmo o InDesign e possui alguma experiência no ramo gráfico. Coloque o Scribus diante dessa pessoa e informe-lhe que não precisa esquentar a cabeça com as fotos em RGB. No mínimo, essa pessoa achará que você é fraco da ideia ou que não entende de absolutamente nada.
  3. O terceiro ponto é a padronização no mercado. Pergunte a uma gráfica como o arquivo a ser impresso deverá ser entregue. A resposta é quase um clichê: "o arquivo deve ser entregue no formato do CorelDraw com os textos convertidos em curvas e as fotos em CMYK". Pronto! Fim de papo. Não tem conversa. Você vai fazer o que? Vai procurar outra gráfica? Nem adianta tentar citar outro software que eles irão informar que não trabalham com ele. Não adianta bater o pé e procurar outra gráfica. A outra gráfica que você ir irá repetir a mesma coisa. Se você for em dez gráficas, todas as dez irão passar essa diretriz. Bom, isso significa que não tem solução? Não é bem assim. Existe solução sim. Senão eu não estaria aqui trazendo esse artigo.
  4. O quarto item é a falta de conhecimento ou até de confiança em usar o Scribus. Mas a escolha e utilização do Scribus na editoração eletrônica está mais ligada a questões comerciais e culturais do que questões técnicas. Os aplicativos proprietários possuem um forte apelo comercial ligados ao marketing e principalmente por esterem, de fato, há mais tempo no mercado.

Muito se fala do Scribus. A internet está repleta de artigos elogiosos e de tutoriais. Porém, falar que ele serve para levar seus trabalhos para a gráfica é muito fácil. Mas e quanto à prática? Dá para encarar a indústria gráfica com software livre? A resposta é sim! Tranquilamente sim! Sem medo de errar. Sou muito seguro dessa resposta, pela minha própria experiência.

Mas melhor do que encher páginas e mais páginas de textos, que tal mostrar? Isso é raro em qualquer artigo na internet, pois qualquer produção gráfica envolve custos. E você não quer arriscar pagar do seu bolso uma lambança que você mesmo provocou não é? Além disso é um risco muito grande colocar à prova a sua credibilidade profissional por conta de um software que contraria totalmente a orientação da gráfica. É muito mais confortável elogiar o Scribus na teoria e, na hora da coisa séria, correr para o CorelDraw. É mais seguro! Isso é o que a maioria faz.

Pois é, mas eu faço diferente. Na verdade eu uso Scribus e não tenho medo ou vergonha de declarar isso. Não só uso, como levo serviços para gráficas que eu diria que "são chatas" - dessas cheias de critérios e parametrizações. São serviços feitos prá valer mesmo, serviços de verdade com clientes de verdade e que, obviamente, não podem dar errado. Claro que, para isso, preciso ter plena confiança naquilo que estou fazendo e preciso confiar no software que eu uso. O arquivo que é entregue na gráfica eles nem sabem de onde veio e em qual software foi produzido. Talvez na cabeça deles tenha sido produzido no Corel, sei lá. Não perco o meu tempo argumentando com eles sobre software A ou B. Acho mais divertido manter meu segredo e continuar ouvindo eles informarem que só trabalham com o Corel, enquanto eu continuo levando coisas feitas no Scribus e até no Inkscape. Também não importa, está tudo certo, perfeito, com as cores CMYK separando corretamente. Basta mandar imprimir na impressora de separação e deixar a coisa rolar.

É exatamente isso que pretendo mostrar neste artigo. É necessário quebrar essas paradigmas que existem! Vários desses paradigmas existem apenas na nossa mente. Alguém o colocou lá e ficou.

Atualmente, tenho muitos itens que já passaram pelo Scribus e foram para a gráfica sem jamais me ocasionar qualquer tipo problema. Há alguns anos, eu já tive um problema com um software proprietário porque esqueci de converter uma foto para CMYK. O resultado foi que aquela imagem saiu impressa em preto e branco. Se na época eu usasse o Scribus esse "erro" não teria me gerado problema algum.

Eu sempre quis mostrar neste blog algum material impresso e genuinamente produzido com software livre - do começo ao fim - em todas as etapas de criação. O problema é que não tenho os registros digitais de todos os meus materiais que já produzi. Em outros casos, o que eu não tenho é o registro impresso. Além disso, alguns arquivos um pouco mais antigos que possuo estão descaracterizados, faltando imagens por exemplo - o que inviabiliza eu querer mostrar que foram finalizados no Scribus.

Entretanto, no momento que eu escrevia esse texto, acabara de chegar da gráfica o material mais recente que eu produzira dias antes. Trata-se de um informativo institucional, de caráter religioso, com oito páginas e impresso em papel couchê. Abaixo você pode constatar imagens reais do arquivo impresso e o mesmo arquivo ainda no ambiente de produção, no Scribus.





Agora, vou saindo do Scribus e vou abordar um outro software para lá de polêmico para produção gráfica: o Inkscape.

Talvez você já tenha lido em redes sociais, comunidades ou fóruns de discussão, que artes produzidas no Inkscape não tem possibilidade de enviá-las para impressão gráfica. Será mesmo?

Veja abaixo um exemplo de cartaz para um evento encomendado pela mesma instituição do informativo acima. O cartaz é no tamanho A3, sendo impresso em papel couché brilho, cuja arte foi totalmente produzida no Inkscape, conforme mostra as imagens abaixo.



Abaixo, à esquerda, o resultado do material produzido no Inkscape com impressão gráfica. A coloração do cartaz impresso aparenta estar demasiadamente opaca, mas é devido ao reflexo produzido pelo papel couché. Infelizmente não observei isso quando a fotografia foi tirada, mas posso afirmar que a impressão e as cores estão perfeitas. À direita, baseado na imagem do cartaz, também foi produzido um pequeno informativo em preto e branco, dessa vez usando o Scribus.


Será que alguém ainda duvida que dê para produzir excelentes materiais para impressão gráfica, com profusão de cores perfeita, na resolução certíssima e magnífica qualidade, usando somente software livre?


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